Apocalipse Zumbi – Cartas #part2

Carta da Ananda Christina Pinheiro Sarro – @nandysarro

Ela estava a ponto de subir no ônibus quando se lembrou de que havia deixado o celular na sala de aula, em cima da carteira. Após um segundo de hesitação, Alice correu em um rompante em direção à escola, sem se importar que as folhas soltas em seu caderno caíssem pelo caminho. Havia marcado de encontrar as amigas para um almoço na praça de alimentação do shopping, mas certamente não chegaria a tempo. Era um daqueles dias em que tudo parecia dar errado. Ela só não imaginava o quanto.

Alcançou, ofegante, o portão da escola. Parou por um instante para recobrar o fôlego e se pôs a correr novamente. Quando se aproximava do pátio central, escutou um grito ensurdecedor vindo da biblioteca. Imaginando que se tratava de alguma brincadeira sem graça de estudantes do fundamental, seguiu seu caminho até que um grunhido abafado a deteve. Um súbito fedor envolveu o ar, trazendo-lhe à memória o dia em que sua avó morrera. Cheiro de gente morta. Alice ficou imóvel, prendendo a respiração em uma tentativa frustrada de permanecer incógnita. Alguém se aproximava por trás dela, ela podia escutar os passos vacilantes. Temia encarar o assassino, que decerto carregava o corpo fétido da vítima consigo.

Arriscou uma olhadela para trás e viu. Um corpo em avançado estado de decomposição. A pele azulada descamando, feridas pútridas espalhadas por todo o corpo, os olhos arregalados desprovidos de qualquer emoção e o que restava do cabelo pendendo da cabeça carcomida. A criatura exalava o cheiro de morte. Mas não estava morta.

Alice conteve um soluço quando reconheceu o colar que o zumbi usava. O pingente de coração com a letra A gravada com o qual seu namorado fora enterrado havia 2 meses jazia ali, no peito da criatura. Suas feições estavam desfiguradas pela marca da morte, mas a roupa que usava e o que restava do cabelo não permitiram a Alice negar que aquele era Ivan.

– Ivan? Ivan, por quê?

Tremendo, ela estendeu a mão para acariciar seu rosto, mas ele avançou para cima dela ameaçadoramente e ela entendeu que aquele não era seu namorado. Precisaria matá-lo para manter-se viva, mas como matar aquele que já morreu?

Invadida por uma súbita certeza de que sabia o que fazer, ela correu depressa para a sala onde havia deixado seu celular e ficou aliviada de encontrá-lo intacto. Discou rapidamente o número da casa de Ivan.

– Alô? Senhora Mascarenhas? É, é a Alice aqui. Queria te pedir um favor urgente, prometo que explico depois.

Instruiu a mãe de Ivan a deixar o apartamento e proteger-se do apocalipse zumbi em um lugar mais seguro, não sem antes depositar a chave da casa sob o tapete de entrada. Àquela hora, segundo o noticiário que vira a senhora Mascarenhas, os zumbis estavam por toda parte. Os transportes públicos deixaram de funcionar e as lojas estavam todas fechadas.

Alice percorreu o caminho até a casa de Ivan em uma bicicleta que encontrou abandonada na frente da escola, desviando de um sem-número de zumbis lentos que vagavam pelas ruas da cidade. Encontrou a chave do apartamento sob o tapete, conforme previra. Abriu a porta da casa e foi invadida pelas lembranças dos momentos que passara ali com Ivan. Tudo permanecia igual, salvo a presença de seu namorado, que furtava ao ambiente boa parte de seu charme.

Alice entrou no quarto de Ivan e o encontrou inalterado. Os mesmos bonecos de ação decorando a estante principal e uns poucos livros sobre a escrivaninha, seu caderno de química ainda aberto na mesma folha de revisão para a prova que ele nunca faria. Dessa vez não conteve as lágrimas. Permitiu-se chorar por alguns minutos, desabando na cama de Ivan, desejando poder voltar no tempo e impedir o namorado de entrar no carro com o pai bêbado.

Sentiu-se culpada pelo que estava prestes a fazer. Respirou fundo e começou a destruir o quarto. Rasgou as cortinas, rabiscou as paredes, cortou todas as roupas que encontrou no armário, jogou o computador no chão, rasgou os cadernos, livros, fotos e o diário de Ivan. Apagou seu número do celular. Depois, pegou a bicicleta e foi até sua casa fazer o mesmo com tudo o que lembrava o namorado. E assim, destruindo as impressões de uma pessoa sobre a terra, matava aquele já morreu.

Mais tarde, Alice assistiu no noticiário a história do zumbi que fora encontrado inerte no pátio da escola que ela frequentava. Com a certeza de que seu plano dera certo, avisou a imprensa sobre a solução que havia encontrado e resignara-se à ideia de que Ivan agora só existia em sua mente.

 

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